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O que ninguém conta sobre comer fora e trabalhar com SII

5 min de leitura

O medo antes da refeição

Quando entrevistei doentes com SII para a minha tese, esperava ouvir falar sobretudo de dor e de dieta. O que ouvi mais foi sobre ansiedade em contextos sociais.

O padrão é este: existe a comida em casa, que é controlada e segura, e existe a comida lá fora, que é uma incógnita. Entre uma e outra há um cálculo mental constante, e esse cálculo cansa.

Vários participantes descreveram desenvolver medo de comer em público, antecipando uma crise. E o passo seguinte é quase automático: começa-se a recusar convites. Foi por isso que a palavra isolamento apareceu tantas vezes nas conversas.

A carga mental que ninguém vê

Há um custo invisível em ter de negociar todos os dias entre o que o corpo aguenta e o que a situação social espera. Um almoço de trabalho, um aniversário, um jantar com amigos: cada um destes exige planeamento antecipado que ninguém à volta imagina que existe.

É importante dizer isto em voz alta, porque quem vive com SII muitas vezes acha que está a exagerar. Não está. A gestão da condição é uma segunda tarefa a tempo inteiro.

O que ajuda, na prática

  • Ver a ementa online antes de sair, porque decidir com calma em casa evita a escolha em pânico à mesa.
  • Escolher o restaurante quando puderes: grelhados, japonês e churrasqueiras costumam ser terreno seguro.
  • Comer alguma coisa segura antes de sair, para não chegares esfomeado e a decidir mal.
  • Ter uma frase pronta que não obrigue a explicar tudo, do género tenho uma intolerância alimentar.
  • Oferecer-te para levar um prato quando é em casa de alguém, porque resolve o teu jantar sem ofender ninguém.

Trabalhar com SII

Esta foi a segunda área mais mencionada. Os participantes falaram de faltas ao trabalho, de dificuldade em cumprir horários e de produtividade reduzida em dias maus.

Mas o que mais me marcou foi outra coisa: descreveram ir trabalhar em más condições físicas e emocionais, muitas vezes depois de uma noite mal dormida por causa dos sintomas. Ou seja, o impacto no trabalho não se mede só nos dias em que se falta, mede-se sobretudo nos dias em que se vai à mesma.

Estratégias para o dia de trabalho

  • Saber onde ficam as casas de banho nos sítios onde passas o dia tira uma parte grande da ansiedade.
  • Levar almoço em dias importantes elimina a variável mais imprevisível.
  • Marcar reuniões longas para a parte do dia em que costumas estar melhor.
  • Ter um kit discreto na secretária: medicação, chá de hortelã, uma bolsa de água quente pequena.
  • Decidir com antecedência a quem contas, porque não contar a ninguém obriga a inventar desculpas, e isso também cansa.

A parte que não se resolve com dieta

Vale a pena separar duas coisas que se confundem. Há o que a comida provoca, e há o que o stress provoca. Nas entrevistas, várias pessoas descreveram crises em períodos de pressão apesar de estarem a comer de forma impecável.

Isso não é falha de disciplina, é o eixo intestino-cérebro a funcionar. Se andas a ajustar a dieta ao milímetro e mesmo assim tens crises, o problema pode não estar no prato.